Quando a identidade vale mais que a verdade
11 de junho de 2026, 12:25

Por Edson Júnior Matos dos Anjos –
Há anos observo um fenômeno que me inquieta. Primeiro em conversas familiares, depois em círculos sociais e nos últimos anos, no debate político nacional. Pretendia escrever sobre esse tema há muito tempo, mas a velocidade dos acontecimentos políticos, sempre trazendo novos fatos e desafios, acabou adiando esta reflexão. Talvez, no futuro, este texto pareça ainda mais atual. Talvez envelheça rapidamente. Isso dependerá da própria história.
O que vejo vai além da simples divergência ideológica. Trata-se de um processo em que identidade política e identidade pessoal se confundem como se fossem uma só. Quando isso acontece, a verdade racional deixa de ocupar o centro do debate.
O psicólogo social Henri Tajfel, em sua Teoria da Identidade Social, demonstrou como as pessoas tendem a dividir o mundo entre “nós” e “eles”. Em contextos de forte polarização, o grupo passa a ser uma extensão do próprio indivíduo. Criticar uma liderança é percebido como uma agressão pessoal. É nesse perigoso terreno, que se semeou e prosperou o bolsonarismo enquanto fenômeno social. Mais do que uma corrente política, ele se transforma em uma espécie de pertencimento emocional.
Quando a política vira identidade, o raciocínio frequentemente cede espaço à lealdade cega. Não importa tanto o fato, mas quem o apresenta. Não importa a evidência, mas o lado ao qual ela parece favorecer. O debate público passa a funcionar como uma torcida organizada, onde erros dos aliados são relativizados e falhas dos adversários se tornam provas definitivas de caráter e precisam ser divulgadas, julgadas e condenadas à qualquer custo e de qualquer maneira.
Durante a pandemia, esse mecanismo ficou evidente quando consensos científicos foram transformados em disputas ideológicas. A ciência deixou de ser avaliada por seus resultados e passou a ser julgada pela identidade política atribuída a quem a defendia.O mesmo fenômeno ajuda a explicar por que denúncias, investigações e controvérsias envolvendo figuras centrais do bolsonarismo produziram impacto limitado entre muitos de seus apoiadores. Casos como as investigações sobre rachadinhas, estruturas de comunicação digital apelidadas de gabinete do ódio, o descaso do líder pela pandemia atrasando a compra e desestimulando o uso das vacinas – além de estimular o uso de medicamentos ineficazes e de usar várias frases em tom de deboche diante da gravidade do momento – o desrespeito às mulheres e às minorias, o estímulo à violência, a retirada de direitos trabalhistas, a redução e até congelamento de investimentos em políticas compensatórias e progressistas, o aparelhamento da polícia federal para proteger seus familiares, a implantação do orçamento secreto, a traição à vários aliados de primeira hora, a imposição de sigilos de 100 anos à cartões corporativos, a submissão ao Centrão e aos EUA – inclusive com seus filhos incentivando o tarifaçõ e a saga de Donald Trump contra o nosso PIX – o convite a Alexandre de Moraes para ser seu vice depois de difamá-lo ferozmente em vários palanques institucionais e políticos, além de chamar seu apoiadores de “malucos”, a fuga para os EUA após perder as eleições, articulação para desmanchar a Lava Jato, o famoso “pintou um clima” ao se referir a adolescentes venezuelanas, as isenções fiscais para grandes corporações, o congelamento do salario minimo e de servidores federais e por último, a não aceitação do resultado das eleições de 2022. A culminação desse processo ocorreu nos ataques de 8 de janeiro de 2023. As condenações impostas pelo Supremo Tribunal Federal a diversos participantes daqueles atos demonstram a gravidade dos acontecimentos. Todos esses, além de outros tantos episódios, não provocaram, para parte significativa do grupo, a revisão de posições que normalmente seriam esperadas.
Mais recentemente, um novo episódio chamou atenção da opinião pública. A divulgação de áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelou pedidos de recursos para financiar um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. O caso ganhou repercussão não apenas pelo conteúdo das gravações, mas também pela mudança de versão apresentada. Inicialmente, houve negativa sobre a existência da relação descrita nas reportagens. Posteriormente, o próprio senador confirmou a autenticidade dos contatos e dos pedidos de financiamento, afirmando tratar-se de uma busca legítima por patrocínio privado para uma produção privada. Independentemente das interpretações jurídicas ou políticas sobre o episódio, o que chama atenção é a reação de parte significativa dos apoiadores: um fato que gerou estranheza e questionamentos entre muitos brasileiros produziu pouco ou nenhum abalo na fidelidade de seus seguidores. Em vez de estimular uma avaliação crítica, o episódio foi rapidamente absorvido por narrativas de defesa e justificação, ilustrando precisamente o mecanismo descrito no início deste texto: quando a identidade política se torna mais importante do que os fatos, a prioridade deixa de ser compreender a realidade e passa a ser proteger o grupo ao qual se pertence.
O problema é que, quando a identidade política se torna mais importante do que os fatos, perde-se a capacidade de corrigir erros. A psicologia chama esse fenômeno de dissonância cognitiva: diante de evidências que desafiam crenças profundamente enraizadas, muitas pessoas preferem reinterpretar a realidade a reconsiderar suas convicções. O risco não atinge apenas um grupo político, seja de esquerda ou direita. Ele ameaça a própria democracia. Nenhuma nação se fortalece quando a lealdade a líderes vale mais do que o compromisso com a verdade, a soberania nacional e os interesses coletivos. Romper esse ciclo exige recuperar a capacidade de mudar de opinião diante das evidências, compreender que partidos não são religiões e reconhecer que patriotismo significa defender as instituições democráticas e o Brasil acima de qualquer liderança. Quando isso não acontece, todos perdem.
Publicidade
VÍDEOS