Cada qual no seu cada qual

12 de junho de 2025, 14:35

(Foto: Reprodução )

*Por Gervásio Lima –

Milho e bolo ‘assados’ na Air Fryer, quentão preparado no microondas e fogueira elétrica com chamas de LED. Mais bizarras do que se poderia imaginar, porém estas são algumas das realidades do período mais nordestino do país, o São João, quando se realiza os festejos juninos, com degustação das mais diversas iguarias da típica e nativa culinária regional.

O advento das tecnologias, a insegurança e até mesmo a diminuição da empatia entre os que deveriam ser iguais, ou semelhantes, são algumas das prováveis justificativas para o abandono das seculares tradições populares, como a da festa do São João.

O modo do preparo de alguns alimentos, com a utilização de modernos e sofisticados equipamentos em detrimento de outros mais rudimentares, causa estranheza não apenas para aqueles que em algum momento viveram ou se informaram da existência por meio de familiares, mas, principalmente, para os nostálgicos, que analisam a situação como uma cruel mudança de paradigmas e, ainda pior, como uma ameaça à preservação dos costumes históricos.

O que minimiza o iminente desaparecimento de determinados elementos das tradições juninas são as lembranças das participações do Rei do Baião, Luíz Gonzaga, no Rock in Rio, e do forrozeiro Dominguinhos,  na orquestra de sanfonas no Festival Lollapalooza. Foram momentos especiais para curtir e dançar ao som da boa música nordestina.

Ao contrário das referidas apresentações dos saudosos ícones, atualmente muitos são induzidos a assistirem ao show de música eletrônica do DJ Alok Achkar Peres Petrillo, no São João da cidade de Irecê, a prestigiarem a música gospel do padre Fábio de Melo, no Arraial de Quijingue, ou ao pagodão da Banda Lá Fúria no Bloco “Os Caipiras”, no São João de Terra Nova?

“Aqui tudo piorou, tudo tá mudado”, já dizia Genival Lacerda, que animava o público com shows autenticamente nordestinos e com um estilo inconfundível de cantar o forró, sempre com muita irreverência e ousadia criativa.

Ah, alguns podem argumentar que existe gosto para todos os ritmos e estilos. Concordo, mas existem eventos para cada dia do ano e especificidades.

Como se comportariam os gaúchos se a bebida distribuída durante a Festa da Uva fosse suco de umbu, e os moradores de Presidente Dutra, se as guloseimas oferecidas durante a Festa da Pinha fossem preparadas com cajus!

Cada qual no seu cada qual. Como diz o jornalista Fabrício Carpinejar, ‘aceita que dói menos’.

*Jornalista e Historiador

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