Sabatina do Jornal Nacional expõe semelhanças entre Flávio Bolsonaro e ACM

29 de agosto de 2026, 09:29

A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) na TV Globo, na sexta-feira (28), expôs uma característica que também marca a campanha de ACM Neto (União Brasil) na Bahia: o adversário ocupa mais espaço que as propostas. Em 40 minutos, Flávio citou Lula pelo menos 17 vezes, segundo o Poder360. ACM faz movimento semelhante com Jerônimo Rodrigues, transformado em personagem permanente de sua comunicação. O método é parecido: explorar problemas, produzir insatisfação, prometer “mudança” e deixar em segundo plano a explicação de como ela será feita.

No caso de Flávio, a dificuldade de sair do ataque e entrar nas propostas apareceu quando César Tralli perguntou para qual patamar ele pretendia reduzir a dívida pública. O candidato não deu número. Falou em cortar ministérios,
e cargos. Pressionado novamente sobre onde faria o ajuste, voltou a atacar Lula. As agências Lupa, Aos Fatos e UOL Confere apontaram ainda informações falsas ou distorcidas sobre Pix, urnas eletrônicas, 8 de Janeiro, dívida pública, Adriano da Nóbrega e o filme Dark Horse.

Na Bahia, ACM adota uma versão semelhante da mesma arquitetura eleitoral. Evita o confronto direto com Lula porque precisa disputar o eleitor lulista, mas concentra em Jerônimo a narrativa negativa da campanha. Na estreia do horário eleitoral, no mesmo dia 28, ACM dedicou boa parte do programa à história familiar, ao avô Antônio Carlos Magalhães e às derrotas anteriores. Segundo o Bahia Notícias, a peça não destacou uma proposta setorial concreta. Flávio apareceu na Globo com “Mudança” escrita na mão, ao lado de “Futuro” e “7/set”.

Não é apenas uma coincidência de marketing. Flávio e ACM defendem o corte de gastos públicos (e consequentemente das políticas sociais), maior participação do setor privado e uma política de segurança punitivista. Há diferenças de intensidade e de linguagem, mas a matriz é semelhante: o poder público reduz sua presença direta em algumas áreas enquanto reforça sua face repressiva em outras.

É também uma concepção que se distancia do modelo defendido pelos governos de Lula e Jerônimo, baseado na ampliação do investimento público, fortalecimento de serviços estatais e uso do Estado como indutor da economia e das políticas sociais. A disputa, portanto, não é apenas entre nomes. É entre dois projetos de administração pública.

Na segurança, a identidade política fica ainda mais evidente. Flávio Bolsonaro radicaliza o discurso bolsonarista de encarceramento e redução da maioridade penal. ACM adota uma formulação parecida. São graus diferentes de uma política que privilegia repressão, autoridade e força como respostas centrais para problemas complexos da segurança pública.

A proximidade não é apenas ideológica. O PL de Flávio integra formalmente a coligação de ACM na Bahia, e João Roma, presidente estadual do partido bolsonarista, disputa o Senado na mesma chapa. O UOL revelou ainda que a campanha presidencial de Flávio decidiu não lançar um candidato competitivo ao governo baiano justamente para concentrar forças em ACM e tentar derrotar o campo político de Lula no Estado.

Isso ajuda a explicar a aparente contradição de ACM. Nacionalmente, está cercado por aliados de Flávio Bolsonaro. Na Bahia, tenta manter distância da imagem do candidato presidencial do PL porque precisa de votos de eleitores de Lula. Não há ruptura política: há adequação eleitoral.

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