Atendimento precário de Atenção Primária à Saúde em Salvador sobrecarrega rede estadual de hospitais e clínicas
11 de junho de 2026, 16:10

Relatório da Prefeitura aponta que a capital baiana realiza apenas 66,6% de cobertura de APS e admite queda na oferta de remédios para doenças crônicas (Foto: Ascom/Sesab)
Nos últimos três anos, o Governo da Bahia já investiu, somente em Salvador, mais R$ 600 milhões em 39 unidades de saúde (hospitais, policlínicas, maternidades, centros de referência e unidades de emergência), que integram o rol de práticas e ações da Atenção Especializada estadual. A rede funciona como extensão da Atenção Primária à Saúde (APS), responsabilidade da Prefeitura. Mas, de acordo com o Plano Municipal de Saúde de Salvador, lançado em março de 2026, a capital baiana é a pior em atenção básica – se comparada a Belo Horizonte, Recife e Fortaleza -, com cobertura de apenas 66,6% de APS, o que acarreta sobrecarga no sistema estadual de saúde.
Apesar dos esforços estaduais, Salvador, que recebe R$ 709 milhões por ano do Sistema Único de Saúde (SUS) para organizar toda a rede em nível municipal, apresenta deficiências significativas na gestão desses serviços. Atribuição do Executivo municipal, a APS é a etapa inicial de cuidado em um sistema de saúde, na qual as pessoas recebem a primeira assistência médica. Esta fase é crucial para a prevenção de doenças, diagnósticos, tratamentos e reabilitação de pacientes.
Ao longo dos três últimos anos, as duas policlínicas estaduais da capital baiana realizaram mais de 1,6 milhão de atendimentos e ocorreram 106 mil cirurgias eletivas e 278 mil atendimentos nas Feiras Saúde Mais Perto. Ao todo, são 21 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) sob a gestão do estado em Salvador. Sobre saúde mental, o Plano Municipal de Saúde de Salvador aponta que a Prefeitura ficou quase 10 anos sem abrir um CAPS enquanto a taxa de suicídio dobrava e as tentativas cresciam quase 3.000%.
A secretária estadual da Saúde, Roberta Santana, chama a atenção para a gravidade da deficiência na cobertura da atenção básica de saúde em Salvador. “Quando a gestão municipal falha em garantir o básico — deixando a atenção primária abaixo dos 70%, a saúde bucal em 40% e uma cobertura de agentes comunitários de saúde que não chega a 30% —, ela está transferindo uma responsabilidade que é sua e pressionando os demais níveis de atenção à saúde. A ausência do cuidado preventivo na ponta faz com que o cidadão soteropolitano, sem assistência no posto de saúde do seu bairro, acabe agravando seu quadro clínico e batendo na porta dos hospitais estaduais”, frisa. Segundo o Plano de Saúde de Salvador, uma em cada 5 internações em Salvador poderia ser evitada com uma atenção primária eficaz.
O documento de análise aponta que Recife, cuja população é de 1,5 milhão de habitantes, tem o triplo de agentes comunitários de saúde que Salvador, cuja total de habitantes é de 2,56 milhões. “Enquanto o município falha na base, o Estado consolida Salvador como um polo de alta complexidade e assistência especializada. Em Salvador, o Governo no Estado entregou o Hospital 2 de Julho, o Hospital Ortopédico, o Octávio Mangabeira e o Mont Serrat, primeiro hospital de cuidados paliativos do Brasil. Ao todo são 16 hospitais estaduais em Salvador, além de 6 maternidades, 2 UPAs, 3 unidades de emergência e duas policlínicas”, destaca a secretária.
Porta de entrada
Salvador inspeciona pouco mais da metade dos imóveis contra a dengue — a meta federal é 80% — e, mesmo em áreas de alto risco, a capital da Bahia mantém infestação do mosquito da dengue 13 vezes acima do nível de alerta. A Prefeitura não conseguiu bloquear todos os focos de dengue após notificação de casos — 1 em cada 4 bloqueios não foi executado, revela o relatório municipal de saúde. “Mais da metade dos moradores de Salvador não tem acesso a dentista pelo SUS municipal — e a Prefeitura só promete resolver isso até 2029”, aponta o texto. O plano reconhece, ainda, queda na oferta regular de medicamentos para doenças crônicas na rede municipal.
Roberta Santana frisa que a atenção básica é a porta de entrada do SUS. A titular da pasta estadual de Saúde observa que, quando a APS não funciona adequadamente, toda a rede sofre as consequências. As filas aumentam, os hospitais ficam sobrecarregados e a população perde acesso a ações de prevenção e acompanhamento que poderiam evitar o agravamento de inúmeras doenças. “Ressalto que Salvador é município em gestão plena desde 2006. Pela Lei 8.080 de 1990 e pelo Pacto pela Saúde de 2006, o município é o gestor único do SUS na capital. Ele tem a obrigação de organizar, contratar e executar toda a rede, da tenção básica à alta complexidade”, atesta.
Fortaleza
Roberta Santana estabelece um comparativo entre o atendimento em APS em Salvador e em Fortaleza, cuja população, segundo o IBGE, é de 2,57 milhões de habitantes, pouco maior que na capital baiana. Apesar da semelhança quando se refere a dados populacionais, a diferença na estrutura municipal de saúde entre as duas capitais é expressiva e revela escolhas administrativas muito distintas ao longo dos últimos anos.
“Fortaleza construiu uma rede própria robusta, com dez hospitais e maternidades municipais, ampliando a capacidade de atendimento, reduzindo a pressão sobre outras esferas do SUS e facilitando acesso da população a serviços de saúde. A capital baiana conta com dois hospitais municipais, que funcionam apenas via regulação e uma maternidade inaugurada em março de 2026, número claramente insuficiente para uma cidade desse porte”, comenta a secretária estadual da Saúde.
Segundo ela, o que explica esse cenário são as prioridades adotadas pelas gestões municipais. “Enquanto outras capitais investiram de forma contínua na expansão da rede hospitalar própria, Salvador permaneceu durante décadas sem realizar investimentos compatíveis com o crescimento de sua demanda por serviços de saúde. O resultado é que boa parte da população acaba recorrendo às unidades estaduais, que absorvem uma demanda que deveria ser compartilhada de forma mais equilibrada com o município”, diz.
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