ARTIGOS

Depois da tempestade, vem a bonança

14 de julho de 2022, 11:25

Foto: Gervásio Lima

*Por Gervásio Lima

O ditado mais utilizado para expressar a ideia de esperança e tranquilidade diz que “depois da tempestade, vem a bonança”; uma espécie de alento para quem acredita que ‘nada vai durar para sempre’, ou seja, o que está ruim hoje, amanhã pode melhorar.

A expectativa de melhoras após um período conturbado é um sentimento quase que unânime, mas quando o inverso acontece a dificuldade de resiliência é sem tamanho. O indivíduo não costuma trabalhar com a possibilidade de que “depois da bonança vem a tempestade”, talvez por acreditar que na vida só existe espaço para o que for positivo. Esquece que as agruras também fazem parte da existência humana e está presente inclusive nas consideradas “melhores famílias’.

Nem tudo acontece como se espera que aconteça, portanto é necessário aprender-se a lidar com os problemas e adaptar-se às mudanças para superar os obstáculos e resistir à pressão de situações adversas. Conformado desta realidade, a capacidade de aceitação e o aumento de forças para um possível enfrentamento das adversidades será bem mais fácil e natural.

O mundo vem lutando contra o coronavírus, uma das maiores pandemias de todos os tempos. No Brasil, especificamente, a demora na chegada das vacinas foi responsável pela morte de centenas de milhares de seres humanos. A postura anticiência contribuiu para que o país fosse um dos piores na resposta à doença.

Na ânsia de se permitir ser, e estar feliz, depois de um longo período de confinamento e medo, muitas pessoas, encorajadas pela diminuição de casos graves e pelos efeitos positivos das vacinas, se ‘aventuraram’ no primeiro teste do retorno das grandes aglomerações ao participar dos festejos juninos realizados em praças públicas de diversas cidades do nordeste brasileiro.

O agarradinho da dança de forró e os encontros em volta das fogueiras foram alguns dos exemplos de bonança que marcaram o mês de junho e início de julho deste ano. Mas como diz outro ditado, ‘o que é bom dura pouco’, o ajuntamento de pessoas nas confraternizações juninas está sendo responsabilizado pela ascensão da média móvel de Covid no período. Informação considerada uma verdadeira tempestade.

É como ficar triste depois de ficar feliz.

Mas todo bom brasileiro sabe que é uma questão de tempo a volta da felicidade e do sossego.

Forte é o povo.

*Jornalista e historiador

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As pessoas precisam ser ‘concertadas’

14 de junho de 2022, 17:34

*Por Gervásio Lima –

Entende-se por emancipação a possibilidade de adquirir de forma antecipada, ou por algum tipo de mérito, a soberania, a conquista da liberdade. A palavra remete àquilo que avança, algo benéfico.

 Um anseio coletivo seria a realização de um desejo em comum entre sujeitos. Em um mundo globalizado a visão que se espera sobre a vida é a do respeito e a complacência. Se comportar como se estivesse participando de uma competição de ‘cabo de guerra’, onde o principal objetivo é medir forças entre dois grupos até que apenas um vença é, além de uma infeliz demonstração de egoísmo, um ato que beira a insensatez.

Que o mundo, em especial a Terra Tupiniquim, vive um momento hostil todo mundo, ou quase todo mundo, sabe. A valorização da desavença em detrimento do bom relacionamento assusta, enquanto as instituições sociais são desvalorizadas a partir de ataques banais e desnecessários. Uma verdadeira desconstrução dos preceitos básicos para a convivência harmoniosa entre os seres.

A família, a igreja e o estado voltam a ser usados de forma deturpada, tendo inclusive suas características deformadas e seus sentidos alterados. Demagogias explícitas têm influenciado diretamente nas mudanças de comportamentos, provocando a disseminação do ódio e outras atrocidades que poderiam ser evitadas.

“A esperança é a última que morre”, portanto o bom brasileiro não pode desistir nunca de buscar ou criar meios para que o avanço signifique confiança em dias realmente melhores para todos, independentemente de que lado da corda esteja.

Como em um jogo de xadrez, é preciso ter autocontrole e inteligência emocional para saber o momento certo para fazer acontecer aquilo que se almeja –  ou seja, o lance final.

Antes de mais nada, as pessoas precisam ser concertadas (no sentido de estar em harmonia) para que determinados consertos aconteçam.

Forte é o povo!

*Jornalista e historiador

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A lâmpada e um Aladdin baiano

27 de maio de 2022, 13:55

Foto: Gervásio Lima

×Por Gervásio Lima –

Praia de Jardim Armação, localizada no bairro do mesmo nome, em Salvador. Início da manhã de um dia da semana, em alguma data de um mês de 2022. O mar estava bastante agitado, com maré alta e apesar de o clima estável, as nuvens no céu apresentavam a chegada de chuvas.

Não muito comum, a praia estava totalmente vazia e não apresentava sujeira. O mar estava bastante convidativo.

O som das ondas quebrando nas pedras e na areia era o ‘resumo da ópera’.

De repente uma lâmpada. Peraí, areia, onda, mar e lâmpada? Sim, uma lâmpada é encontrada na areia com algumas conchinhas grudadas, em um sinal de que ela estava no oceano há algum tempo.

Antes da ação cidadã de coletar e jogar em um local adequado, a vontade de esfregar o objeto, como fez o personagem infantil Aladdin, foi enorme. Como na saga, os três pedidos, desta feita o de um baiano, já estavam automaticamente prontos: 1º – que o ser humano volte a ser sinônimo de humanidade; 2º – que a vida seja respeitada em todos os seus aspectos e 3º – que a igualdade deixe de ser uma utopia.

A lâmpada de Aladim representa o centro da inteligência humana, mais precisamente a consciência, o que infelizmente tem faltado no ser humano, que insiste em carregar consigo os resquícios do período neolítico, com sabedoria limitada e instinto selvagem.

A lâmpada, que remete à luz e à vida, fora do seu bocal tem o poder de machucar caso esteja quebrada e de contribuir para destruir um ecossistema.

*Jornalista e Historiador

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A cabeça pensa onde os pés pisam

26 de maio de 2022, 13:41

*Por Gervásio Lima

Ter a oportunidade de caminhar na areia das praias é um privilégio para poucos, ainda que subestimado por muitos. Viver a natureza não seria suficiente se não existisse a possibilidade de sentir em sua plenitude os efeitos da contemplação e do contato com o real. Só quem já praticou sabe o quanto é relaxante andar com os pés descalços ao longo de uma praia. O corpo agradece e a mente festeja.

Como uma mensagem subliminar, uma forma de incentivar algum tipo de comportamento, apreciar o meio ambiente é ter a capacidade de proteger e defender aquilo que é bom e que faz bem. Como diz o filósofo Leonardo Boff: “cuidar é mais do que um ato; é uma atitude. Portanto, mais do que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”.

Conscientizar as pessoas sobre a necessidade da preservação ambiental é tão importante quanto difícil, e achar que essa premissa não é urgente e não afeta de imediato é uma visão equivocada. Diversos têm sido os ‘recados’ para os que, mesmo sabendo que chegaram depois, insistem em desafiar a responsável por sua origem.

Mas o que tem a ver o caminhar na areia com a natureza e o zelo com o outro? Tudo. O resumo de um conjunto de boas atitudes e bons comportamentos é a essência da vida, do respeito com o que ainda contribui direta e indiretamente para a existência humana. Invadir espaços preestabelecidos não faz bem nem para o invasor, nem para o invadido. O resultado não bate com a soma.

Fingir que não se importa chega a ser pior do que acreditar que a responsabilidade é uma atribuição alheia. Agir para resguardar propósitos que contribuam para justificar a sobrevivência das espécies são atribuições lógicas e conscientes de uma humanidade sadia.

Já desconstruir para satisfazer o ego pernicioso, é comportamento característico do dissimulado, do sujeito danoso. Acompanhar ou apoiar situações que põem em risco a harmonia do natural com o imaterial é tão tacanho quanto a mentalidade do tosco incentivador de tal barbárie.

“A cabeça pensa onde os pés pisam”, afirmou Frei Betto.

*Jornalista e Historiador

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A impunidade prevalecerá enquanto não houver consciência

11 de maio de 2022, 13:25

*Por Gervásio Lima

A ausência da punição ou a sua aplicabilidade de forma não desejada tem deixado de ser discussões que antes remetiam apenas à área jurídica, ao ambiente forense. Atualmente, como técnico de futebol, onde todo torcedor se autodeclara suficientemente capaz de escalar e fazer determinadas mudanças no seu time do coração, as sentenças são amplamente comentadas e às vezes decididas por tribunais compostos por magistrados com os mais diversos tipos de entendimentos sobre a mesma matéria.

O que era para ser um ‘ponto de vista’ vem se transformando, em muitos casos, em ‘meias-verdades’, utilizando-se elementos reais para se criar situações embaraçadoras e perigosas, colocando, inclusive, reputações até então ilibadas como duvidosas.

Os chamados ‘julgadores de plantão’ confundem, e, consequentemente, prejudicam mais que ajudam. Um verdadeiro desserviço para uma sociedade atônita e acometida por rajadas de desinformações e intolerâncias. Um caos total.

As relações interpessoais estão cada vez mais difíceis, sem respeito às ideias e opiniões alheias. A intriga permeia, enquanto a compreensão, o entendimento, a aceitação e a consideração (empatia) têm perdido espaço para a violência, a desarmonia e o ódio. E isso com um agravante, o uso da religião e a imagem da família para confundir aqueles de astúcia limitada.

A antiga estratégia de comunicação, que consiste em empregar recursos emocionais ou simbólicos pra induzir alguém a aceitar uma ideia, uma atitude, ou realizar uma ação (persuasão), tem sido a principal ferramenta utilizada para distrair e tirar o foco de um problema que tem se tornado cada dia mais crônico: a lógica da mentira e  da enganação.

A arte de persuadir nunca esteve tão presente, e, o pior, o emprego de argumentos ilegítimos está conseguindo mudar até mesmo a conduta e a crença de muitos indivíduos, afetando inclusive seus caracteres.

A impunidade prevalecerá enquanto não houver consciência.

Forte é o povo!

*Jornalista e historiador

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Sabido era o chimpanzé

05 de maio de 2022, 12:21

*Por Gervásio Lima

Reza a lenda que nos lugares mais secos da África para se encontrar um local com a presença de água se prendia um chipanzé por dias, e quando o soltava era só o seguir que encontraria o precioso líquido, pois o mesmo iria direto para uma ‘fonte conhecida’. Sendo verdade ou não, seria uma excelente, mas criminosa, estratégia, uma clara demonstração de maus tratos com um animal.

É de fácil imaginação, usando como exemplos cotidianos, que os praticantes deste macabro método de utilizar o sofrimento alheio para amenizar o próprio, não se penalizavam por tal atitude, por considerar o que pode se chamar da ‘lei da sobrevivência’ ou instinto, uma constante luta pela continuidade da existência. Isso é fato desde a época das cavernas.

O uso de táticas para a garantia da vida vem desde os primórdios. O aprendizado e a evolução humana marcaram a história da existência na terra. Corrobora esta afirmação a espécie à qual pertencemos, o Homo sapiens, que desde o seu surgimento, há cerca de 300 mil anos, já ‘se virava’ para se manter vivo, utilizando da sua habilidade em caçar e cozinhar a carne de suas ‘presas’.

O antigo ditado popular ‘procurar a rudia onde quebrou o pote’ (atribuir a autoria de algo ao seu verdadeiro autor) surge como uma forma de validar a sabedoria popular, que não seria o caso específico do chipanzé (a vítima), mas daquele que ao mesmo tempo é detentor da inteligência e de ausência do conhecimento.

É natural, elogiável e humilde, recorrer àquele ou aquilo que aponte a solução que se procura. Pedir ajuda não ranca pedaço de ninguém (mais um ditado), ao contrário, fortalece o espírito coletivo, melhorando as relações entre os semelhantes.

Agora, usar ‘a lei do mais forte’ como álibi para tirar proveito, do que quer que seja, se valendo da posição que esteja, da função que exerça ou da condição financeira que possua, é mau-caratismo, comportamento típico do covarde.

As relações sociais serão mais efetivas e sadias quando o respeito pelas diferenças e a irmandade passem a ser reconhecidos e praticados na sua essência, onde a sobrevivência seja o significado do dever cumprido (sem usura, sem inveja e sem violência) do ser humano durante sua passagem pelo mundo.

*Jornalista e historiador

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Só ultrapasse com segurança

28 de abril de 2022, 13:19

*Por Gervásio Lima

‘Em time que está ganhando não se mexe’, esta talvez seja uma das mais conhecidas e usadas frases quando o objetivo é justificar o engessamento de algo. É também um dos maiores contrassensos que existem. Seguindo o sentido literal, uma interpretação precisa observará que time vem de coletivo, de um grupo, e ganhar é sinônimo de vitória, portanto quando se possui boas peças em uma equipe as mudanças, nesta equipe, são naturais.

O perigo é quando a mudança ocorre de maneira a não utilizar o bom senso, trocando as qualidades existentes por uma aventura. O incerto geralmente decepciona, causa prejuízos incalculáveis, muitas vezes de difíceis recuperações.

Na dúvida não ultrapasse, mas tendo certeza do que realmente esteja fazendo ou prestes a fazer, siga sua intuição. Não se encabule e não dê atenção ao que não tenha partido da própria vontade. Muito cuidado, fazer por fazer é um comportamento mesquinho e pernicioso.

Continuar apostando no que faz bem não cansa, enquanto insistir no mal está fadado ao fracasso. Existe a mudança consciente e a troca infundada, aquela que inevitavelmente levará os desprovidos de opinião própria a incorrerem em sérios riscos.

Errar é humano, mas permanecer no erro é burrice. Este outro ditado popular está relacionado ao fato de que as pessoas têm até o direito de errar, mas também devem se ater à sabedoria e ao aprendizado, evoluindo para não mais cometer os mesmos erros.

Persistir no erro é desumano, enquanto errar é humano. Reconhecer o erro é ter caráter, mas persistir no erro é uma péssima escolha.

Uma boa escolha se leva à aquisição de produtos de qualidade, livre de falsificações. O sábio não se sente envergonhado em recorrer ao passado para decidir o que realmente quer para si no presente.

Os bons exemplos precisam ser copiados e disseminados e a consciência limpa é um exterminador em potencial de vários tipos de sujeiras.

O bom só é bom quando não for para apenas um, mas para um todo.

Forte é o povo!

*Jornalista e historiador

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SALVADOR É OUTRA HISTÓRIA

29 de março de 2022, 10:45

Foto: Notícia Limpa

Texto em baianês de Louti Bahia

Modéstia à parte, que horas são? Já tá na hora de comemorar o aniversário de Salvador? Foi mal aí, não dei o migué não! Quase que eu me passo mermo: juro que eu pensei que era de hoje a oito, mas agora tô de boa. Borimbora que eu preciso contar essa história direito.

Né querendo me gabar não, vú, mas Salvador é a primeira da porra toda: primeira capital do Brasil, primeira cidade do Brasil e primeira cidade planejada do Brasil. Né não, é? A história é essa, mô pai. Se não gostô, venha dá seu jeito.

Tanto é verdade que ela já nasceu com nome de cidade: Cidade do Salvador, uma homenagem a Ele, Ele mermo, Jesus Cristo. De lenhar, né? Por isso que a gente é soteropolitano: o habitante da cidade (politano) do Cristo (sotero vem do grego sotêr, que quer dizer salvador).

Massa, né? É é por isso que tem aquele Cristo ali no morro da Barra. Colé de mermo? Você pensa que a gente imitou o do Rio, foi? Aooooonde!!! O nosso Cristo foi esculpido 11 anos antes em homenagem ao nome original da nossa cidade. Se ligue: Salvador não imita ninguém não, Salvador é boca de zero nove.

Se plante, deixe de bestagem, deixe picuinha e aprenda a história verdadeira. Que Salvador foi a primeira capital do Brasil, tá de boa, todo mundo tá ligado. Mas, meu nego, tá rebocado que você não sabe que ela também foi a primeira cidade do Brasil. Agora eu vou me amostrar: antes de 1549 aqui no Brasil só tinha vila, vilarejo, povoado, mato, onça, cobra, sariguê e aranha. Receeeeeba!!!

Aí, Tomé de Sousa chegô chegano e tirou onda: já veio de Portugal como primeiro governador geral do Brasil e trouxe as plantas da primeira cidade desenhadas em linho. Nossa cidade não foi feita a migué não, pai: Salvador já nasceu brocano!!!

Pire aí: ela foi planejada em Lisboa com o que havia de mais moderno na época, o Tratado do Desenho Italiano. Eita!!! Brocô de novo!!! Pelas regras desse tratado, tinha que ser construída “em acrópole”. Agora fui eu que broquei: falei pouco mas falei difícil. Acrópole quer dizer na parte alta. E tá ligado que lá atrás (lá ele) tinha um rio onde hoje tem a Baixa dos Sapateiros, né?

Vou te dar a real: Tomé de Sousa trouxe mais de 1.000 homens em seis embarcações: uma aglomeração da porra!!! E um passarinho me contou que ninguém tava usando máscara. Um terço era de soldado, um terço era de marceneiro, carpinteiro, pedreiro e mais gente de construção. Além deles, vieram os degredados que tiveram que trabalhar pesado aqui pra ganhar a liberdade.

Junto com essa galera também veio o Mestre das Obras, Luis Dias, o arquiteto da época. O cara era retado, trabalhava várias horas de relógio e se fulano ou sicrano fizesse armengue, tomava baculejo. Foi ele que comandou a grande obra, fez as primeiras ladeiras (Conceição e Preguiça), a Casa de Câmara e Cadeia (atual Câmara Municipal), o Palácio do Governo (atual Palácio Rio Branco) e a principal rua da cidade, a Rua Direita do Palácio que hoje é a Rua Chile.

Mas se ligue: a Cidade do Salvador nasceu toda feita de madeira e palha. Aqui não tinha pedra não, pai. Malmente tinha barro pra fazer casa de taipa. E os portugueses tiveram que levantar um muro de madeira cercano tudo com medo do ataque dos índios. Quem manda invadir as terras duzôto? E dijunto do muro fizeram um fosso de água por fora das duas portas de entrada que tinham ponte levadiça. A Cidade do Salvador não era pouca merda não. Parecia uma superprodução de Hollywood, né não? E era mesmo. Já imaginou quanto Portugal investiu pra construir uma cidade do lado de cá do oceano? Foi dinheiro comaporra. Salvador já nasceu tirando onda.

Né culhuda não que eu não sou garganteiro. Salvador continuou brocando em alta ao longo da história. Até o século XIX, era o principal porto do hemisfério sul do planeta! O mundo todo passava por aqui: gente da Zoropa, da África, da Índia, da casa da porra. Até Charles Darwin veio por essas bandas. Em 1832, ele ficou na dele e pesquisou nossa fauna e flora para a sua Teoria da Evolução das Espécies. Moral da porra, vú? Mas no ano seguinte ele olhou de novo pra Salvador e disse “é pra lá que eu vou”. Apareceu aqui e ficou solto na buraqueira: Charles Darwin pulou o nosso carnaval!!! É mole? Onde hoje é a Praça Castro Alves, no século XIX era o Largo do Theatro São João. Lá rolava o carnaval da elite baiana imitando o de Veneza. Aí, Charles Darwin não guentô e ficô todo se bulino.

Que mal lhe pergunte, sabe qual foi o primeiro carnaval do Brasil? Nem lhe conto. Como eu disse no começo, Salvador foi a primeira da porra toda: o primeiro carnaval do Brasil aconteceu aqui em 1549. Êta lasqueira. Os padres jesuítas que chegaram com Tomé de Sousa realizaram a festa nas aldeias indígenas pra facilitar a catequização. Hoje em dia não parece, mas o Carnaval é um evento do calendário católico.

Já viu, né: quanto mais eu escrevo, mais tem coisa pra escrever. É por que Salvador é o ouro, é barril dobrado. Mas chega de bolodório senão você vai dizer que eu falo mais que a nega do leite.

E se você não é daqui e ficou com inveja, né comigo não! Não me conte seus problemas. Só te digo uma coisa: se não guenta vara, peça cacetinho porque Salvador é outra história.

Texto em baianês de Louti Bahia, da Amo a História de Salvador

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Cansei de mim

24 de março de 2022, 10:14

Foto: Reprodução

Cansei-me da elite brasileira! E eu sou parte dela. Cansei de mim.

Branco, com acesso aos Poderes, formado pela UnB e com mais condições de vida do que a absoluta maioria da população. Mas, que coisa nós viramos! Um Brasil triste, capenga e ridículo. Termos ainda 30 % dos brasileiros apoiando o crápula do Presidente diz muito sobre quem nós somos: um país que nega a existência do navio negreiro, que teima em dizer que não há racismo e que convive com a violência e a misoginia. Uma aristocracia que ganha dinheiro com a miséria. Nós somos uma sociedade que aceita sentar-se com o Bolsonaro defensor de torturadores, que cospe nas mulheres, que cultua a morte e exalta a tortura.

A pior representação do que poderíamos imaginar. Vamos esquecer daquela ideia do brasileiro cordial. Vamos fixar no brasileiro sacana, covarde e indiferente com a pobreza, com a fome e com o desemprego. Naquele para o qual pouca importa se nosso sofrido povo está em estado de abandono – com 14 milhões de famélicos e 20 milhões de desempregados. Essa é a nossa elite.

Às vezes, como elite que sou, fico andando pela Europa, ainda que a trabalho, e devo dizer que não vejo aqui o ambiente tóxico que temos no dia a dia da imprensa brasileira. É difícil ter, como temos, alguns jornalistas viúvos do ex-juiz Sérgio Moro e que se apresentam como ícones. Parece não existir fundo nesse buraco. Nós somos o fim do tal poço.  

Mas, ainda assim, é preciso resistir às tragédias diárias. Não é possível viver somente entre uma guerra sanguinária de uma ocupação covarde e bandida e um Brasil se desmilinguindo como povo e como nação. Hoje, somos uma imagem pálida do que éramos na era do Lula. O bando chefiado pelo Moro, que foi o principal eleitor do bolsonarismo, a serviço de grupos que precisam ser desmascarados, roubou o que tínhamos de mais nosso: uma identidade orgulhosa de um país.

Sendo lulistas ou não, temos apenas uma chance de voltar a ter o Brasil de volta: derrotar esse projeto obscurantista. Vamos vencer o fascismo, confrontar os representantes da barbárie e fazer um Brasil feliz de novo!

Na verdade, não estamos a pedir muito. É um pouco de respeito, uma pitada de amor, um carinho pelas pessoas que estão absolutamente desprotegidas e um afago, no limite. Até, quem sabe, um abraço amigo. Ou seria pedir demais um contato assim, quase amoroso, com quem esses bárbaros cuidam de afastar das nossas vidas? E vamos enfrentá-los em todas as áreas.

Ainda agora, o Superior Tribunal de Justiça condenou um dos membros daquele bando.  O tal Deltan foi condenado a pagar ao Lula, pela leviandade do uso do power point, um valor a título de danos morais. Um gesto mínimo de respeito por parte do Judiciário. Um reconhecimento de que a breguice, o uso político e a ausência de técnica jurídica do Ministério Público não podem prevalecer. Deltan não é só corrupto e incompetente; ele é coitado, brega e vulgar.  E a sua reação contra o Tribunal foi de um destempero de quem se julga acima das instituições.

É o começo do fim do grupo que Moro comandava. Vamos garantir a eles os direitos que eles desprezaram. Todos, inclusive o da prisão somente após o trânsito em julgado. Sem vingança, apenas com respeito à Constituição.

Remeto-me ao grande Castro Alves, em O Navio Negreiro:

“Quem são estes desgraçados,

Que não encontram em vós,

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são?”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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O brasileiro é, antes de tudo, um forte

17 de março de 2022, 08:32

Foto: Reprodução

*Por Gervásio Lima – Um novo normal se apresenta como a banalização de tudo que se foi construído em torno da essência do apaziguamento, das relações interpessoais e do que realmente é o respeito à vida. O egoísmo e as vicissitudes preponderam, enquanto o bom senso se confunde com o irreal.

O saber viver nunca foi tão necessário, principalmente no momento em que o comportamento passou a ser um termo que generaliza as escolhas em todos os sentidos. O novo não significa necessariamente boas mudanças, ao contrário, em muitos casos ele tem sido nocivo, perigoso.

As distorções propositais estão aliadas à falta da capacidade de interpretar determinadas mensagens. O querer apenas ouvir e falar o que considera como verdade absoluta é a ponta do iceberg, uma pequena parte de um problema que inevitavelmente pode gerar situações desagradáveis.

Como se estivessem em uma verdadeira guerra, onde o perigo é iminente, os indivíduos se comportam como se estivessem em um campo minado, colocando o fator sorte e sua crença religiosa como justificativa para o livramento.

A Angústia, o medo e até mesmo a vergonha por ter tomado determinada decisão ou ação têm transformado criaturas em seres introvertidos e rodeados de incertezas.

O novo normal não acontecerá quando tudo que se entende por ruim passar ou acabar; o novo normal nada mais é que a capacidade de aceitar as diferenças, respeitar o semelhante e não fazer juízo de valor através de conceitos antecipados.

Enquanto xenofóbicos, misóginos, homofóbicos, ’etaristas’ e outros tantos praticantes de discriminações e preconceitos não aprenderem que todos são iguais e dividem espaços no mesmo planeta, a normalidade não deixará de ser uma utopia.

Quem acredita que a prática do bem é um caminho ainda seguido pela maioria, não se deixa abater e nem dá lugar para o desanimo e o desespero. Parafraseando Euclides da Cunha, em seu clássico Os Sertões, ‘o brasileiro é, antes de tudo, um forte’.

As adversidades não são invencíveis e não podem ser usadas como subterfúgio. A partir das dificuldades é que se alimentam as forças para derrotar aquilo que aflige. O alento ao encarar uma ladeira é saber que ela não possui apenas subida, mas também descida.

Forte é o povo.

* Jornalista e historiador.

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